Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Esse poema de Oswald de Andrade mostra-nos exatamente a grande tendência geral que a nação brasileira tem em optar por essa colocação pronominal antes do verbo, chamada próclise. De acordo com a gramática normativa, não se colocam pronomes oblíquos ao início de frases. Mas, não resultando no desentendimento da mensagem, de forma geral, as pessoas tendem a dizê-lo desta forma. Duas são as regras que regem a colocação pronominal: 1ª Não se iniciam frases com pronomes oblíquos; 2ª A próclise é sempre correta, exceto em início de frases.
Said Ali, em seu magnífico livro chamado “Dificuldades da Língua Portuguesa”, diz-nos que a colocação pronominal é algo, meramente, fonético, em contradição a alguns autores. Ele exemplifica dizendo-nos: A gramática mostra-nos que existem alguns fatores de próclise, ou seja, palavras e expressões que criam uma tendência a anteposição destes pronomes, a exemplo, “Não me chame disso”. Porém, em verbos no infinitivo e no gerúndio, essa tendência não existe, a exemplo, “Não amá-lo é como minha morte”; Não amando-te não saberia como viver, e existem também palavras que não são advérbios, mas tem sentido negativo. A exemplo, a preposição “SEM”: Sem amá-lo não consigo viver.
É bem verdade, que a próclise já atua na fala nacional como uma forma fixa de falar, e como bem disse Oswald: “Mas o bom negro e o bom branco da nação brasileira dizem todos os dias: Deixa disso, camarada, me dá um cigarro”.
Não existe uma forma certa de falar, mesmo porque se existisse não saberíamos que a disse e, desta forma, como saberíamos se é verídico. Não resultando no desentendimento da mensagem, o importante é comunicar-se. A gramática, neste contexto, atua como coadjuvante e não como ator principal. Então, “Me dê um cigarro”.
Poema de Oswald de Andrade
Conceitos e embasamentos de Said Ali (Dificuldades da Língua Portuguesa)
Texto e interpretação de Bruno Oliveira (Letras Português – UFPI)
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