domingo, 8 de novembro de 2009

PRÓCLISE, UMA FORMA DE FALAR!




Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Esse poema de Oswald de Andrade mostra-nos exatamente a grande tendência geral que a nação brasileira tem em optar por essa colocação pronominal antes do verbo, chamada próclise. De acordo com a gramática normativa, não se colocam pronomes oblíquos ao início de frases. Mas, não resultando no desentendimento da mensagem, de forma geral, as pessoas tendem a dizê-lo desta forma. Duas são as regras que regem a colocação pronominal: 1ª Não se iniciam frases com pronomes oblíquos; 2ª A próclise é sempre correta, exceto em início de frases.
Said Ali, em seu magnífico livro chamado “Dificuldades da Língua Portuguesa”, diz-nos que a colocação pronominal é algo, meramente, fonético, em contradição a alguns autores. Ele exemplifica dizendo-nos: A gramática mostra-nos que existem alguns fatores de próclise, ou seja, palavras e expressões que criam uma tendência a anteposição destes pronomes, a exemplo, “Não me chame disso”. Porém, em verbos no infinitivo e no gerúndio, essa tendência não existe, a exemplo, “Não amá-lo é como minha morte”; Não amando-te não saberia como viver, e existem também palavras que não são advérbios, mas tem sentido negativo. A exemplo, a preposição “SEM”: Sem amá-lo não consigo viver.
É bem verdade, que a próclise já atua na fala nacional como uma forma fixa de falar, e como bem disse Oswald: “Mas o bom negro e o bom branco da nação brasileira dizem todos os dias: Deixa disso, camarada, me dá um cigarro”.
Não existe uma forma certa de falar, mesmo porque se existisse não saberíamos que a disse e, desta forma, como saberíamos se é verídico. Não resultando no desentendimento da mensagem, o importante é comunicar-se. A gramática, neste contexto, atua como coadjuvante e não como ator principal. Então, “Me dê um cigarro”. 


Poema de Oswald de Andrade
Conceitos e embasamentos de Said Ali (Dificuldades da Língua Portuguesa)
Texto e interpretação de Bruno Oliveira (Letras Português – UFPI)

Fora de moda...






Se não estivesse fora de moda...
Eu iria falar de Amor.
Daquele amor sincero, olhos nos olhos,
frio no coração.
Aquela dorzinha gostosa,
de ter muito medo de perder tudo.
Daqueles momentos que só quem já amou um dia,
conhece bem.
Daquela vontade de repartir,
de conquistar todas as coisas...
Mas não para retê-las no egoísmo material da posse,
mas doá-las, no sentimento nobre de amar.
Se não estivesse fora de moda...
Eu iria falar de Sinceridade.
Sabe, aquele negócio antigo
de fidelidade, respeito mútuo...
e outras coisas mais.
Aquela sensação que embriaga mais que a bebida.
Que é ter, numa pessoa só, a soma de tudo que
às vezes procuramos em muitas.
A admiração pelas virtudes, aceitação dos defeitos...
E, sobretudo, o respeito pela individualidade,
que até julgamos nos pertencerem,
sem o direito de possuir.
Se não estivesse tão fora de moda...
Eu iria falar em Amizade.
O apoio, o interesse, a solidariedade de uns
pelas coisas dos outros e vice-versa.
A união além dos sentimentos
e a dedicação de compreender para depois gostar.
Se não estivesse tão fora de moda...
Eu iria falar em Família.
Sim!  Família!!!
Pai, mãe, irmãos, irmãs, filhos, lar...
O bem maior de ter uma comunidade unida
pelos laços sanguíneos e protegidas pelas
bênçãos divinas.
Um canto de paz no mundo, o aconchego da morada,
a fonte de descanso e a renovação das energias.
Família...
O ser humano cumprindo sua missão mais sublime
de seqüenciar a obra do criador.
E depois...
Eu iria até, quem sabe, falar sobre algo como...
a Felicidade.
Mas é pena que a felicidade,
como tudo mais, há muito tempo já está
fora de moda.
Sabe de uma coisa...
Me sinto feliz por estar tão fora de moda.
E você?
Também está fora de moda como eu?
Espero que sim!!!

                                  Autor Desconhecido